Ásia hardcore

3 05 2010

Estou há um tempão tentando criar vergonha na cara pra falar mais aqui no blog de assuntos que eu gosto. Na maioria das vezes, os posts ficam limitados a notícias sobre o JAM – que é sempre legal -, uns covers, que eu adoro gravar, e alguns poucos comentários sobre o que tenho a mão no momento, sempre no susto. Well, como as minhas promessas de fazer isso e aquilo no blog nunca foram lá muito cumpridas, prefiro assumir que vou escrever textos maiores esporadicamente. Quando rolar, rolou. Quem sabe fazendo essa psicologia reversa comigo mesmo as coisas não acelerem de ritmo? Whatever Works, como sugere o filme do Woody Allen.


Pois bem. Começo falando sobre a Oriental Cinema, revista americana, super underground, sobre filmes e séries (geralmente lado B) asiáticas, que bombou no meio dos anos 90 entre comunidades de fãs americanas. Conheci a revista na Gibiteca Henfil, devia ser 97, 98… Meu parceirão de fanatismo por heróis japoneses, Rodrigo Guerrino, foi quem me apresentou a O.C., vendida em São Paulo em algumas poucas bancas e livrarias obscuras que tinham um pé no submundo cultural. Se não me engano, o Rodrigo comprou a revista na livraria Muito Prazer, antigo oásis dos colecionadores de quadrinhos no centro da cidade.

A Oriental Cinema me chocou. Era diferente de tudo o que eu tinha visto até então. Tinha raça, espírito explorador, coisa que eu e meus amigos lá no final dos anos 90, num mundo analógico e desplugado, também tínhamos. A O.C. explorava cada canto, cada beco escuro da Ásia atrás de produções bizarras com monstros, super-heróis, guerreiros chineses voadores, mulheres peitudas feras em kung-fu, animações empoeiradas, naves espaciais, etc, etc…

Conseguir uma fita VHS com alguma raridade japonesa naquela época era uma puta alegria, na mesma proporção que era uma puta dificuldade. Tinha outro sabor. O mesmo sabor de garimpar informações em uns poucos livros disponíveis, sempre em japonês. Cada nova linha que alguém conseguia traduzir era motivo para comentários empolgados durante semanas. Nosso mundo ainda era tátil, não digital. Éramos guiados pelo interesse insuportável em descobrir mais camadas de informação, o que nos tornava arqueólogos nerds do próprio hobby. A Oriental Cinema também tinha essa fome de bola, e há bem mais tempo que a gente. Por isso foi tão espetacular encontrar a revista. Era como, sei lá, fazer contato com uma civilização mais avançada, uma tribo engajada há mais tempo e com mais meios de desbravar uma selva ainda fechada demais para nós nesse canto do planeta.

Não me lembro de nenhuma outra revista ou site que conseguiu juntar num mesmo espaço, por exemplo, Astro Boy, Gamera, pornografia indiana, Gyonsi (vampiros chineses), Takkaman, filmes com clones de Bruce Lee, Megaranger, Jackie Chan, Tekkon V. O limite eram as bordas (e algumas adjacências) da cultura pop asiática. Dentro dessas fronteiras, valia tudo. Inclusive matérias sobre as produções amadoras que o editor, Damon Foster (uma figuraça, falo mais dele daqui a pouco), rodava com os amigos.

O papel era pobre (melhorou nas edições pós-2000), a impressão em preto e branco (exceto a capa e uns posters terríveis de imagens porcamente escaneadas de revistas importadas) e a diagramação feia de doer. Trazia poucas fotos. As páginas eram tomadas por texto, muito texto. Colunas e colunas de informações preciosas que dificilmente daria para encontrar em outro lugar.

Algumas coisas que li por lá estão frescas na memória desde aquela época: uma resenha sensacional sobre o improvável Chinese Hercules, um dos primeiros filmes do Bolo Yeung; a versão coreana capenga do Spielvan, o Sparkman, do diretor Shim Hyung-rae, autor de várias sagas podreiras de fição/ fantasia (esse é um tema que rende outro texto enorme); Super Batman & Mazinger V (!!), outra esquisitice coreana; o enorme apanhado dos Giant Heroes japoneses, com comentários série a série, etc.

Descobri também lendo a O.C. a existência do seriado japonês Battle Hawk, num tempo em que se conseguir livros importados do Japão era bem mais complicado e caro. E como esquecer as edições do Sammo Hung e Jet Li, com longuíiiiisimos ensaios ultra-minuciosos sobre a filmografia dos dois?

A maioria das edições da Oriental Cinema era temática. A que trouxe o apanhado dos Giant Heroes, por exemplo, vinha com a chamada “The Giant Titans Issue”. Esse era o padrão: “The Samo Hung Issue”, “The Japanese Science Fiction Issue”, etc. Mas, apesar de dedicar maior espaço para o tema da vez, havia seções fixas viciantes. Eu checava primeiro a “Kaizo Ningen Update”, sobre tokusatsu e animes. A lógica da escolha das pautas parecia aleatória. Numa edição de 95, Ohranger e B-Fighter dividiam espaço com um guia de episódios do Astro Boy clássico, de 63. Vai entender.

Já na coluna Asian Oddities, criada como birra pessoal do editor para manter a revista à frente da concorrência, valia tudo. A tática era conseguir falar da maior quantidade possível de filmes obscuros da Ásia. Quanto menos conhecido e mais estranho, mais chances tinha de ser analisado pela revista. Cada edição surpreende de um jeito. De musicais bizarríssimos da Índia ao terror gore da Indonésia, a única certeza em meio a tanta coisa inusitada era a de que muito provavelmente as resenhas eram melhores que os filmes.

Não é só a escolha sensacional dos filmes e séries que faz da Orieltal Cinema uma revista foda. Os textos são demais. Ácidos, politicamente incorretos (ex: “Há uns 20 anos, filmes de exploração da imagem de Bruce Lee eram mais comuns do que triciclos estacionados na entrada do rancho de Michael Jackson” – O.C.#15), provocavam a concorrência e não toleravam leitor que falasse bobagem. Tudo ali refletia a mente pirada do editor Damon Foster, que escrevia a O.C. de cabo a rabo.

“Se você é do tipo de pessoa unidimensional típica, que vive exclusivamente para responder trivias sobre filmes, não continue lendo. Agora, se você for uma mente aberta, madura, que está sempre pronta para curtir uma história divertida ou perspicaz, arranque os sapatos e reviva a minha infância ao meu lado e todas as experiências que, indiretamente, levam a existência da revista não convencional que você tem em mãos!”

Damon Foster

Foster é um quarentão americano fascinado por monstros, demônios, heróis e kung-fu que resolveu criar um fanzine sobre o assunto nos anos 70, época em que publicações independentes feitas por fãs eram muito comuns. Ele foi um adolescente peculiar: rebelde e boca-suja, simpatizava com o movimento punk e vivia metido em inferninhos barulhentos, mas quando voltava para casa, seu maior prazer era assistir episódios de Ultraman e filmes de monstros. Essa sua nerdice descolada moldou seu estilo desbocado de escrever, o que foi determinante para o sucesso da Oriental Cinema. Foster escrevia as resenhas como se estivesse num bar, comentando com os amigos o último filme que viu na TV.

Como bom nerd desse segmento, ele também faz filmes amadores. Inspirado pelas estrelas de Hong Kong, estudou um pouco de artes marcias, o que lhe deu coragem o suficiente para bancar o durão em algumas de suas produções escrachadas, das quais também é roteirista e diretor. Os amigos bancam os assistentes e a edição era (talvez ainda seja) feita na base do botão pause do videocassete. As pérolas de Foster incluem uma comédia, Age of Demons, com, segundo a sinopse oficial, “artes marciais, punk rock, mulheres peitudas e a invasão de um império demoníaco”, uma redublagem de um filme coreano obscuríssimo de ficção científica, que ele rebatizou de Shaolin Vs Terminator (participação do Mestre Yoda), sua releitura de Matrix, Martyr X, com monstros de tokusatsu e enxertos de filmes orientais antigos, e por ai vai (no Youtube você encontra alguma coisa).

A última edição da Oriental Cinema de que tenho notícia é de 2006. O assunto da capa prova que mesmo depois de décadas Damon Foster não perdeu a mão: os 30 anos de Inframan! Conhece? É um filme chinês com pegada de Kamen Rider, em que (adivinha?) um super-herói – o Inframan – combate a tirana Elzebud, uma princesa demoníaca – ela estampa a capa da edição. O filme é animal. Tem raios, monstros de borracha, cenários bizarros e muita pancadaria. Faz tempo que não vejo (preciso achar o VHS velhão e passá-lo para DVD), mas lembro de uma cena, mais para o final, em que, por baixo, rola uns 10 minutos de kung-fu frenético non-stop entre os heróis e os soldados rasos da inimiga. Incrível. E que revista melhor do que a Oriental Cinema para resenhar um filme desses com a riqueza de detalhes que ele merece?

Edição especial Inframan 30 anos
Desanimado com a queda de vendas – que nunca foi grande coisa, lembrando que estamos falando de uma publicação de nicho – Foster teve que diminuir o ritmo da O.C.. Dá pra perceber que ele não é muito simpático a idéia das pessoas não pagarem mais por informação. Eu adoraria uma versão online da revista, num ritmo muito mais dinâmico e acessível para mais pessoas. Mas o cara nem blog tem. Pelo menos nunca achei.

E assim, mal adaptado aos novos tempos, um dos maiores arqueólogos do cinema oriental lança apenas uma edição nova da O.C. a cada três anos. É uma relíquia em extinção, tentando sobreviver em seus antigos moldes. E Foster continuará, obstinado como sempre foi, tentando marcar sua presença. Continuará tentando não deixar o sonho de outros tempos acabar.

Videocast

No O.C. The Webcast, gravado em 2009, Damon Foster conta um pouco da história da revista e lembra de algumas resenhas que escreveu para a O.C.. Tem umas palhaçadas estilo Jack Ass – como quando Foster é mordido repetidas vezes pelo seu lagarto de estimação -, mas o programa vale como registro histórico sobre a revista e como oportunidade de ver trechos de algumas produções asiáticas obscuras pra cacete, daquelas que você só encontra na Oriental Cinema.

Aqui.