Entrevista com Nelson Sato – 2005

24 06 2008

Revirando o baú virtual achei uma entrevista que eu e o Rodrigo Guerrino fizemos com o Nelson Sato para a revista Gyodai, em 2005. Foi ele que licenciou pela primeira vez o Akira no Brasil. Ele também trouxe Cybercops, Super Human Samurai, e, claro, Ultraman e National Kid, décadas depois da exibição original. O Nelson é um cara importante para a trajetória das produções japonesas por aqui. As informações estão desatualizadas, mas não deixa de ser interessante.


Gyodai – Você pretende voltar a trabalhar com licenciamento de
seriados japoneses?

Nelson Sato: Eu tenho muita vontade de voltar à ativa nesse segmento.
Acho que existem muitos fãs hoje que sentem saudades da época do auge
dos heróis japoneses na TV e que, de repente, podem consumir as
novidades que o Japão vem produzindo atualmente.


Gyodai – Os EUA ainda são impecilho para adquirir as séries originais?

NS: Não tanto quanto era. Agora que Power Rangers passou para a
Disney, as outras marcas estão liberadas para o licenciamento mundial.

Gyodai – Quer dizer que a Saban pretendia fazer mesmo uma versão
americana para todos os tokusatsu japoneses?

NS: Pois é. E havia um interesse do Japão também, porque o mercado
americano é muito grande. Então, a Saban iria cuidar do licenciamento
do lado ocidental do globo enquanto a Toei cuidaria só do oriente. A
parceria sempre interessou às duas partes. Mas, depois que a Disney
assumiu, as coisas mudaram um pouco de figura.


Gyodai – Então, com exceção dos super sentai, hoje, podemos ver os
demais tokusatsu no formato original?

NS: Sim, voltamos ao esquema antigo, o de negociar direto com o Japão.


Gyodai – Com certeza, todo mundo vai ficar torcendo para que tudo dê
certo. Mas, como a matéria é sobre a era de ouro dos tokusatsu no
Brasil e você teve uma grande participação nela, conte como que tudo
começou.

NS: Bom, eu começei como dono de locadora em São Caetano do Sul. Nessa
época começaram a chegar os primeiros aparelhos de vídeo cassete no
Brasil, mas ainda não tinhamos distribuidoras de fitas estabelecidas
aqui, portanto, as pessoas ficavam sem ter o que assistir. Foi aí que
tive um clique e montei uma locadora de vídeo, que foi um grande
sucesso e prosperou muito. Em 83 eu montei outra em Guarulhos. Até
então, todo o material disponível no Brasil era pirata. Mas, de 84
para 85, começaram a entrar as distribuidoras no Brasil. Apareceu uma
em Minas Gerais que não me recordo no nome e a Paramont chegou aqui
como CIC Vídeo. Quando eles começaram a me pressionar a comprar as
seladas e me dezer das piratas, e visto que eu tinha mais de cinco mil
fitas nas prateleiras, resolvi vender a locadora. Percebi que aquilo
iria terminar, pois a fita legal era muito cara e vinha muito atrasada
em relação à exibição nos cinemas.
Nessa época, eu tinha 24 anos de idade. Com a venda das locadoras
consegui um dinheiro bom, e fiquei vivendo de juros durante um ano,
pensando em alguma coisa para fazer. Foi aí que eu resolvi montar uma
distribuidora focada no público infantil, porque eu sabia que as
crianças alugavam muito. Conheci um representante da Toei nos cinemas
do bairro da Liberdade, que na época exibiam filmes japoneses. Ele me
indicou uma outra pessoa com quem tive a minha primeira reunião sobre
licenciamento de animação japonesa.

Gyodai – Nessa época você chegou a ir até o Japão?
NS: Isso foi quando fui assinar o contrato. Comprei da Toei seis
desenhos na época. Fizemos a negociação via teléx (risos), que era o
que se usava na época e, na hora de firmar o contrato, ele me pediu
para qu eu fosse até o escritório dele, em Tóquio. Eu, que nunca tinha
feito uma viagem internacinal, acabei indo. Fui recebido pelo senhor
Honma, o diretor na época, que tomou um baita susto quando descobriu
que eu, então um garoto de 25 anos, era o dono da empresa. Disse:
“aqui você ainda seria boy” (risos). Mas criamos uma empatia e
fechamos o contrato. Eu era ainda muito inexperiente, levei o dinheiro
numa pasta e tal… (risos). Mas começei minha relação com a Toei a
partir daí.

Gyodai – Você já conhecia o Toshi nessa época?
NS: Depois que voltei do Japão ele veio me visitar no escritório. O
Toshi também tinha uma locadora, como eu e também queria entrar no
mercado legal. Eu acabei falando pra ele sobre o que estava fazendo
sucesso no Japão naquela época, que era 1985, o ano do Jaspion e ele
acabou indo lá e comprando antes de mim.

Gyodai – E você continuou trabalhando com desenhos?
NS: Sim. Estava com a Brasil Home Video. Recebia visitas da Disney,
pois fui pioneiro em lançar desenhos em vídeo. Lançei alguns animes da
Toei, como Dos Apeninos aos Andes, que ia um pouco na onda de Heidi,
entre outras coisas.Só que eu fiz uma campanha de marqueting bastante
agressiva. Comprei um espaço na Globo e coloquei comercial no horário
da Xuxa. Como nenhuma distribuidora tinha feito isso antes. Por causa
disso acabei conhecendo o pessoal das outras empresas.

Gyodai – Os desenhos foram bem?
NS: Sim. Na época o plano Cruzado estava em vigor e as pessoas se
sentiam confortáveis financeiramente. Mas aí veio o pós-Cruzado, que
foi um horror. Muita gente quebrou nessa época. Eu fiquei numa
situação complicada também. Mesmo assim, como eu vi que o Jaspion e os
Changeman, que o Toshi, pela Everest Video, tinha lançado estava
funcionando, eu fui atrás dos Cybercops.

Gyodai – A Everest passou a ter exclusividade com a Toei?
NS: Não era bem exclusividade e sim prioridade. Tanto que a Top Tape e
a Globo trouxeram algumas séries de lá. Mas eu não. Resolvi deixar a
Toei de lado e fui até a Toho, por onde comprei os Cybercops. Isso foi
no final dos anos 90 e os live action já estavam pegando. Tanto que
quando eu voltei do Japão, tinha tinha um fax do Mario Wada, dono da
estrela, na minha mesa. Ele já sabia que eu tinha comprado a série e
queria fazer os brinquedos. Na verdade, a minha idéia, desde o início
foi trazer o brinquedo japonês para o Brasil. Lá, as réplicas são
perfeitas e vendem bem pela qualidade. Eu fui atrás do molde, que era
feito pela Takara. A Estrela estudou isso na época, mas o projeto
acabou inviabilizado, porque os custos eram muito altos. Acabamos
lançando uma linha mais barata.

Gyodai – Como foi lidar com tudo isso na época? Porque imagino que não
havia uma planejamento muito detalhado, era um trabalho feito meio que
no escurão, não?

NS: Era muito divertido. Ainda mais porque as coisas estavam dando
certo. Pensando hoje, percebo quantos riscos eu corri. Ainda bem que
deu certo (risos). Porque eu estava numa fase ruim financeira quando
comprei os Cybercops. Na verdade, a série foi a minha grande aposta,
pois investi nela o único dinheiro que eu tinha e até dinheiro que não
tinha (risos). Por causa do pós-Cruzado, muitas locadoras quebraram e
me levaram muita grana. Quando fiz a compra, só consegui dar a
entrada, porque era um contrato grande. E isso sem saber se as
emissoras iriam querer exibir a série.

Gyodai – Cybercop tinha a obrigação de dar certo.
NS: Sim, tinha que dar certo, se não eu quebrava. Eu fui na Manchete,
no SBT, na Globo… O Silvio me ligou pessoalmente, pra negociar. Ele
disse que tinha gostado da série e queria exibí-la. Mas acabamos não
acertando em valores. Ele queria quinhentos dólares e eu cinco mil
pelos direitos (risos). Acabei indo pra Manchete, que não tinha muito
dinheiro, mas aceitou me ceder um absurdo em espaço publicitário.

Gyodai – Nessa época você já tinha os direitos sobre todo o seriado?
NS: Sim. Peguei TV, vídeo e licenciamento. E o Cybercop entrou no ar
numa época boa, porque a audiência de Jaspion e Changeman já estava
caindo. O que eu queria fazer, era o processo todo igual é feito no
Japão, com a mesma sinergia. Lá, quando o programa estréia, no dia
seguinte você já tem a linha de brinquedos nas ruas, o disco nas
lojas, e todos os produtor agregados à respectiva marca distribuídos.

Gyodai – O problema é que aqui a exibição é diária, diferente do Japão
que passa um episódio por semana. Isso não trouxe problemas?

NS: Eu tinha essa preocupação. Mas, a grande vantagem é que, mesmo
reprisando muito, a série continuou dando audiência. Depois eu li uma
pesquisa que mostrava que a criança assite, em média, até nove vezes
um mesmo filme sem se cansar. Ela capta informações diferentes a cada
reprise. Então com uma série de mais ou menos trinta episódios, que é
o caso do Cybercop, acaba virando trezentos e tantos. Dava para
aguentar um ou dois anos sem muito desgaste.

Gyodai – E a série atingiu o público que você esperava?
NS: Sim. Na verdade, atingiu até mais. Eu achava que as deficiências
da série, de ser filmada em vídeo, e não em película, como o Jaspion e
Changeman podiam frear um pouco a aceitação. Mas não. As qualidade do
Cybercop, que é o design muito moderno, as histórias mais sérias e
trabalhadas, etc, deram um alcance maior do que eu esperava. É legal
porque ela segue uma linha diferente das produções da Toei e era isso
que eu queria mesmo.


Ações

Information

2 responses

24 06 2008
Gustavo Badran

Bacana!
Saudades daquela época!

25 08 2008
Entrevista com Jorge Okubaro « CROSS WORLD

[…] que eu disse que postaria alguns textos aqui? Pois é, faz tempo mesmo (até agora só postei um, a entrevista com o Nelson Sato). Aí vai outro, desta vez, uma entrevista com o jornalista Jorge Okubaro, autor do livro O […]

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