Em 2005 no Japão…

2 05 2008

Organizando minha conta de e-mail, achei vários textos antigos sobre diversos assuntos que escrevi pra um monte de lugares. Resolvi que vou, aos poucos, republicar alguns aqui. Pra começar, vai um que escrevi em 2005 pra revista Made in Japan contanto resumidamente como foi a experiência de gravar no Japão.

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J-Pop com tempero brasileiro
Depois de trinta horas voando (quer dizer, 23, porque sete eu fiquei sentado no maldito Free Shop do aeroporto de Londres esperando o vôo de conexão), lá estava eu, em Narita, Tóquio. A última vez que estive ali foi em 1999 quando fiz intercâmbio para o Japão. Mas, da outra vez, fiquei morando em Tochigi, província a uns cem quilômetros da capital. Outra diferença, é que, desta vez, ao chegar no portão de desembarque os cantores Hironobu Kageyama e Masaaki Endo estavam me esperando, como tínhamos combinado por telefone. Queria dar risada, pois, quando estive no Japão pela primeira vez, escapei duas vezes da minha cidade para ir ver o show dos dois em Tóquio e, agora, cinco anos depois, lá estavam eles, carregando as minhas malas! Inimaginável.

Mas ainda não contei porque voltei ao Japão: no segundo semestre de 2004, estava rolando um concurso para novo membro do grupo vocal Jam Project. O Jam é um sexteto fundado em 2000, que reúne só cantores conhecidos do gênero dos “anisongs”, os temas de anime, seriados live-action, games e mangás. Graças ao contato que tive com o Kageyama, líder do grupo, durante a suas duas visitas ao Brasil, quando participou do evento Anime Friends 2005, acabei desenvolvendo uma amizade muito legal com o meu ídolo de infância (sim, porque ele canta as aberturas originais de Changeman, Dragon Ball Z e Cavaleiros do Zodíaco. Só clássicos!). Ele ficou sabendo que eu também me apresentava cantando em japonês e me viu cantar no ensaio uma música da Masami Okui, que estava gripada e não pode passar o som naquele dia. Tanto ele quanto o Endo gostaram da minha voz e me pediram uma demo feita em estúdio. Mandei o tema de Abaranger, que já tinha gravado faz tempo. Sem eu saber, o Kageyama me incluiu no tal concurso de novo membro do JAM, que, no final, acabei ganhando.

A viagem para lá foi uma conseqüência. No início, iria partir em janeiro, mudei para fevereiro e, depois, a data pulou para março. Sempre que a época se aproximava surgia algum empecilho que me fazia adiar a ida. Acabei embarcando só em 22 de abril. Cheguei lá no dia 24 – sim, você perde dois dias por causa do fuso. De Narita fomos para Tóquio, deixar as minhas malas na casa do Kageyama, que gentilmente se ofereceu para me hospedar (o que preservou meus ienes, porque bancar quinze dias de hotel em Tóquio não seria fácil). Como estava sem sono, fomos dar uma passeada por Shibuya, enquanto colocávamos o papo em dia.

Minha programação era a seguinte: ensaiar no recém construído home-studio do Kageyama as duas músicas do JAM com a minha participação: Neppu! Shippu! Psybuster, tema incidental do OVA (anime lançado direto para vídeo) Super Robot Generations the Animation (o single saiu dia 22 de junho) e Gong, trilha principal do jogo Super Robot Wars Alpha 3 (previsto para agosto). A Psybuster eu já conhecia, pois é uma regravação, mas a Gong não. Logo, foi em cima dela que ficamos ensaiando a maior parte do tempo. Os sanduíches harmônicos, as dobras de vozes e os emaranhados vocais, características marcantes do Jam, exigem um trabalho de pré-produção acima da média. Leva um tempo até você entender tudo aquilo e se acostumar com as intermináveis camadas de sons e vozes soando ao mesmo tempo. O ensaio serve justamente para fixar a parte pela qual você é responsável nessa complexa maçaroca sonora. As músicas geralmente não são lineares.

A gravação oficial ficou marcada para o dia 26, nos estúdios da Lantis, gravadora. Apesar da composição da Gong ser do Kageyama, as harmonias vocais foram criadas por Yohgo Konno, veterano na área (ex-tecladista da banda Make-Up, que gravou Pegasus Fantasy, dos Cavaleiros do Zodíaco). Ele é daqueles japoneses pop underground, com cabelo pintado de cinza, penduricalhos góticos espalhados pelo corpo e um linguajar mais chulo do que o normal (agravado pelo forte sotaque de Osaka). Mas o Konno-san é gente fina pacas e me ensinou muito sobre como funciona a indústria fonográfica nipônica. Contou várias histórias da época da Make-Up e me dirigiu nas duas músicas novas do Jam.

Quando ajustei os fones de ouvido, foi difícil controlar o nervosismo. Era a minha primeira experiência profissional. E, com todo o Jam Project, mais os técnicos, curiosos, e o próprio dono da gravadora, o sr. Shunji Inoue, olhando para a minha cara (parecia circo: “vejam o brasileiro bizarro que canta em japonês!”), quando a luz do REC acendeu pela primeira vez, realmente, não consegui me concentrar. Troquei palavras, gaguejei, tossi, dei risada… Mas fui me acostumando. Todos ali são muito humildes, não carregam pra lá e pra cá o status de estrela que os fãs e a mídia constroem ao redor deles. Por isso, me senti o tempo todo cercado de amigos que fazem coisas legais e não de super astros da música. Isso foi muito importante. Depois de umas cinco horas dentro do estúdio, gravamos todas as vozes das músicas. O trabalho estava terminado. Para a tarde seguinte, estava programada uma coletiva de imprensa em que eles iriam anunciar a minha participação e a do guitarrista Nuno Bittencourt (ex-Extreme – ele tocou, como convidado, na Gong e em uma outra, chamada Meikyu no Prisioner), mas ela acabou sendo adiada para um dia depois da minha volta para o Brasil.

Aproveitei o resto do tempo conhecendo melhor Tóquio. Andei a maior parte do tempo com o Endo, porque Kageyama estava com a agenda bastante cheia. Fomos até Akihabara, Ginza, Shinjuku… Bati fotos com os tipos urbanos bizarros, que se concentram principalmente numa rua fashion de Harajuku chamada Takeshima-dori, fui até uma casa de Pachinko tentar a sorte, comi lamen naquelas barraquinhas de rua (pedi um apimentado tipo “anormal” e quase vomitei na cara o ojisan que preparava o prato), por pouco não tingi meu cabelo de branco, comprei uns livros de tokusatsu na Mandarake, etc. A noite, nós (eu, Endo, Kageyama, Masami Okui – que também é do Jam – e o guitarrista que toca com ela, o Morita) sempre nos reuníamos num barzinho chamado Barcarolla para tomar um saquê, comer uns queijos e jogar conversa fora. A noite de Tóquio é tão diversificada quanto a paulista, com o plus de, lá, a violência ser quase nula.

Nos últimos quatro dias da minha estadia, mudei para a casa do Endo. O Kageyama foi para kyushu fazer uma série de shows acústicos. Nos despedimos na estação de trem – parecia uma daquelas cenas piegas de animes, com direito a olhos enormes cheios de lágrimas e frases como “lutarei pelos meus sonhos até nos encontrarmos de novo!”. Enfim. Nessa última fase da viagem encontrei o Michel, meu amigo de infância que hoje mora no Japão, fui até o ensaio do show do Masaaki Endo, em que até cantei umas músicas e me debati contra as malas para enfiar nelas tudo o que tinha comprado e ganhando em meio mês de Japão.

Toda a experiência valeu muito a pena. Não só em relação às gravações, mas todo o convívio com eles. O jeito de pensar, de agir diante de problemas, de encarar situações, de administrar o dia a dia, etc. Tudo foi um aprendizado e a realização de um sonho. Espero ainda voltar muitas vezes ao Japão, seja a trabalho ou só para passear. Acho que me daria muito bem morando lá também, pois, por quinze dias, tenho a consciência de que, apesar da cara (sou Schiesari Barreto Cruz!), virei um japonês legítimo.


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4 responses

2 05 2008
Deyvisson (Shini)

Cruz, muito foda a matéria, deu para ver muito bem como foi sua primeira experiencia! Kage sempre pareceu ser muito humilde, o que aparenta nao ser é o Endoh, mas isso é um estilo proprio dele entao ja nem reparo mais.

Eles te cadastrarem no concurso foi muito LOL. Voce ganhar foi mair ainda. Muito foda isso! Adoro as musicas do Kage, pena muitos criticarem falando que sao repetitivas. Yohgo é um semi Deus, acho que sentirei falta dele nessa turne! Gostaria que a banda viesse ao brasil acompanhando o grupo.

Voce evoluiu muito desde aquela epoca, gostei de ver e te parabenizo por isso. Digo pq sei que todos os membros melhoraram também! As vezes fico pensando sobre quanto o Danny melhorou apartir da gravação do Divine Love.

Pena Rica ter saido, acho meio impossivel ela vir aqui, teria que ser no ressaca friends pois o lançamento do filme de pokemon sempre ferra com tudo.

Um abraço

2 05 2008
ricacruz

Brigadão!

Magina cara, o Endoh é humilde pacas também. Não tem essa de estrelismo, apesar de parecer pelo estilo dos caras se vestirem e tal. São só pessoas ganhando a vida fazendo o que gostam.

Abração!

3 05 2008
Dragon Kusanagi

Cara, muito legal a sua experiência com o JAM, é bom ler o que você escreveu, porque os sites dizem muitas coisas, mas nada como a fonte primária relatando. Parabéns pelo sucesso, de verdade! Mais uma vez, venho aqui divulgar a minha banda, a Yume no Blue…

http://www.myspace.com/yumenoblue

Tem duas músicas no site, mas a gente tá preparando mais coisas!
Valeu!

3 05 2008
Kona-chan

Cara, muito legal a matéria!!!!Quando vi o Kageyama-sama e Endoh-sama pela primeira evz ano passado, percebi o quanto são gente fina, principalmente kuando chamei o Endoh-sama de Endoh-sama e ele disse pelo ke entendi “oh..não me chame de sama, não sou um deus, ´so faço o que gosto *sorriso* “…achei aquilo fantastico..apesar de ainda não conseguir me referir de outro jeito a ele e qualquer um do JAM.
O nervosismo de se estar entre cantores profissionais e gravando as músicas profissionalmente deve ser muito intensa, até eu fiquei nervosa quando li!!E que sorte a sua por conhcer o Konno-sama!!!Ele é um veterano na aréa e mt respeitado!!^__^
Parabens mesmo, sua participação em gongo foi mt boa!!^^
Ai, to voltando a postar no meu blog…visita la se puder ^__^ http://www.otakusrevolution.com
kissus

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